domingo, 3 de outubro de 2010

Run, he is coming.

Abriu a porta, sentindo um leve medo formigar no estômago. Viu Azael no final do corredor, balançando hipnoticamente seu rabo de um lado para o outro. Fechou a porta o mais rápido possível, torcendo para que ele não tivesse ouvido. Teria que esperar ele ir para outro canto se quisesse ir até o quarto da Linna. Aquele gato seguia as ordens do seu pai cegamente, ajudando a disciplinar seus filhos. Ele provavelmente não sairia dali tão cedo. Voltou para sua cama, esperando mais. Tinha prometido a sua irmã que iria visitá-la essa noite.

Meia hora mais tarde, resolveu checar se ele já tinha ido embora, possibilitando sua passagem pelo corredor no meio da noite. Abriu a porta lentamente, olhando para os dois lados. Sorriu ao ver que ele não estava mais lá e saiu do seu quarto, tentando não fazer barulho nenhum. Andou pelos corredores iluminados somente por uma fantasmagórica luz azul vinda de um lugar longe das vistas de todos que passavam por ali. O ruim de andar pela casa a noite era que qualquer barulho que fizesse ecoaria pelos salões como um alto estrondo. Durante o dia a casa também era extremamente silenciosa, mas o medo de chamar atenção não era tanto. É proibido andar pelos corredores de noite, papai não gosta. E, como papai não gosta, Azael vigia para que ninguém o desobedeça.
Bateu nervosamente na porta do quarto da sua irmã, olhando nervosamente para os lados. Tomou um susto ao ser puxado para dentro por ela, pensando por um momento que poderia ter sido descoberto. Viu-a fechando a porta o mais rápido possível, sorrindo ao olhar para seu rosto.
- Lúcifer, que bom que conseguiu chegar aqui. Por um momento fiquei preocupada, você demorou! – Falou Linna, sussurrando para que ninguém fora do quarto ouvisse.
- Desculpe, Azael estava perto do meu quarto, então eu tive que esperar ele ir embora. Estou ferrado se ele me descobrir, sabe disso.
- Eu sei, eu sei. Aquele gato me dá medo, tenho medo do que ele possa fazer com você.
- Não, Linna. Não se preocupe comigo. Tenho medo do que ele possa fazer com você. Ele já descobriu sobre os nossos encontros, não sei como ele vai agir. Provavelmente vai contar para papai primeiro. E papai não vai gostar de saber disso... Sermos amigos atrapalha aquele treinamento dele.
- Ah, não... Você é meu irmão, Lúcifer! Eu tenho o direito de te ver.
- Não de acordo com as regras dele, Linna. Papai é diferente do resto dos papais, ele gosta de nos ver sofrer.

Abraçou-a, sabendo que ela tinha ficado triste demais com isso. Mas infelizmente era necessário. Não sabia o que papai poderia fazer com os dois se Azael lhe informasse de sua amizade com ela. Ele com certeza iria lhe botar de castigo por muito tempo, mas nunca tinha visto Linna de castigo. Mamãe a protegia da raiva dele. Impedia que ela fosse afetada com a raiva do seu pai. Por isso que Linna era diferente dos outros, por isso que ela era tão gentil, tão carinhosa... Deu um beijo em sua testa, afastando-se.
- Vou ter que ir agora. E, para seu bem, não poderei mais voltar.
- Tudo bem, Lúcifer. Eu entendo. Espero te ver logo...
- Também espero isso. Vou sentir sua falta.
Deu um último abraço nela, abrindo a porta lentamente. Olhou para o corredor vazio e saiu do quarto da sua irmã, indo rapidamente em direção ao seu.

Acordou cedo no dia seguinte com um grito da sua mãe. Pulou para fora da sua cama e vestiu-se o mais rápido possível, indo até onde tinha ouvido o barulho. Arregalou os olhos ao olhar para dentro do quarto de Linna. Ela estava morta. Tinha sangue cobrindo as paredes e seu corpo estava estirado no chão, com uma expressão congelada de surpresa em seu rosto.

Ela estava morta. Olhou para os lados, vendo Azael observando-o no final do corredor. Seu olhar encontrou com os olhos amarelos brilhantes do enorme gato negro, sabendo na hora quem tinha matado sua irmã. Azael tinha tomado sua forma humana e assassinado ela para que isso não interferisse em seu treinamento para ser alguém forte. O problema era que ninguém mais sabia disso, pensavam que algum inimigo tinha matado ela como forma de se vingar de Terror, seu pai. E não importava quantas vezes dissesse quem tinha feito isso, ninguém nunca iria acreditar nele.

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Na minha imaginação, isso soou melhor. Não gostei do resultado.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Mais um entre tantos clones

Todas as paredes do castelo pareciam verter-se para um único ponto invisível no teto alto, fazendo o possível para se encurvar ao máximo. Tinha a impressão de que algo ali estava muito errado. Tudo parecia estranhamente fora do lugar, apesar de que, por mais que olhasse, não encontrava nada errado. O lugar exalava normalidade, apesar de ser o mais estranho de que tivera notícia. Passou por um amplo corredor, subindo lentamente por uma escada em espiral. Ali o lembrava uma cobra adormecida, pelo modo que se enrolava infinitamente acima de sua cabeça. Imaginou, com um pingo de curiosidade, para onde iria dar. Talvez em um lugar maravilhoso, ou junto com fantasmas estranhos que lhe causarão pavor. Queria saber, mas nunca chegava ao fim daquele caracol gigantesco.

Até que o chão sumiu debaixo dos seus pés.

Caiu em um abismo escuro, com um ar viciado e sufocante, um ar com gosto de medo. Aterrissou em um chão fofinho de um quarto com as paredes alcochoadas. Uma pergunta insistente martelava em sua cabeça, mas ele não achava a resposta.

"Você está na solitária de um hospício, senhor."

Virou a cabeça, procurando a fonte de tal voz. Pousou seu olhar em uma criaturinha com um olhar feliz, que batia suas asas freneticamente no ar. Parecia-lhe um tipo de dragãozinho, uma gárgula talvez. Mas não perguntou, talvez fosse muita ignorância de sua parte não saber o que era isso. Aproximou-se dele, olhando o brilho de sua pele arroxeada com fascinação. Aquilo lhe lembrava algum tipo de jóia rara, igualmente com os olhos verde-esmeralda da criaturinha adorável.

"Oh, que falta de educação a minha! Olá, Stephen. Meu nome é Jimmy. Venha comigo, irei lhe mostrar algo."

Cumprimentou Jimmy com um pequeno aceno da cabeça e um sorrisinho no rosto e o seguiu para fora do quarto abafado. Foi atrás dele, pedindo-o para que parasse de correr, suas pernas não aguentavam mais o esforço, elas pareciam ser feitas de pedra. Viu a pequena criatura dobrar em um corredor e foi atrás dela, assustando-se ao ver que tinha parado na porta de um labirinto de aço.

Entrou no lugar, hesitante. Gritou por Jimmy várias vezes, sem obter respostas. Dobrou, indo pelo corredor da direita. Ficou de quatro no chão quando sentiu que o teto estava abaixando cada vez mais, passando pela passagem estreita. Desde quando ali tinha um teto mesmo? Não se lembrava. Caiu em um lago profundo, onde não podia ver até que profundidade a água ia. Nadou até uma ilha que parecia ser bem próxima, mas não conseguiu chegar lá. Um enorme peixe, dez vezes maior que ele, o engoliu sem hesitar nem por um segundo. Tentou gritar para o peixe para cuspir ele, porque não era comida. Mas ele não o ouviu... Chegou ao seu estômago, sentindo o ácido gástrico começar a corroer seus ossos. Mas não era uma dor boa, aquilo não lhe causava prazer como normalmente causaria. Fechou os olhos, sentindo-se estranho. Parecia estar caindo novamente.

Aterrissou pesadamente no chão, abrindo os olhos. Foi somente um sonho. Olhou em volta ao ouvir uma risada abafada, pousando seu olhar em... Qual era o nome dele mesmo? Ah, sim. Andie. Olhou para ele, com um pequeno sorriso envergonhado.

“Sonhando?”

Acenou com a cabeça, ouvindo outra risadinha dele. Andie parecia ser alguém divertido... Era uma pena que só ficaria uma noite com ele. Como todos os outros. Levantou-se do chão e sentou-se na cama, passando a mão pelo seu cabelo, retirando-o do rosto sem olhar para Andie. Não queria olhar para ele novamente, sabia que iria sentir saudades dele, do seu jeito.

“Stephen, será que você...”

Levantou o rosto, olhando para ele com certa expectativa. Será que dessa vez iria ter algo além da única noite? Esperava que sim, fazia muito tempo que não ficava com alguém só por ficar. Mas não tinha culpa. Aquele trabalho virou um vício. As pessoas lhe machucavam mais assim, lhe causavam mais prazer. E com ele, foi inebriante.

“Nada não, deixa para lá. Quanto que eu lhe devo mesmo?”

Suspirou, levantando-se da cama macia do quarto dele, era uma casa confortável. Vestiu-se, falando para ele seu preço novamente. Olhou pela janela, desejando estar logo em casa para tirar o sangue do seu corpo. Ele conseguiu abrir todos os seus cortes... Mas aquilo não importava. Mais uma vez, foi somente uma noite sem importância. Como todas as outras.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Visitante?

Em uma galáxia longe de tudo, no interior do universo, tem um planetinha antipático, antiquado, chato. Nesse planetinha sem graça, existem vários seres estranhos. O ser predominante exibe sua pele lisa, sem pelos para proteger ela como se fosse algo bom. Se um dessa espécie tem mais pelos que os outros, as fêmeas não gostam. As mães desses seres obrigam seus filhos a irem para um lugar onde a maioria odeia, para aprender como o planetinha imbecil deles funciona e como funcionou nos nos mínimos detalhes, desde a sua criação e até mesmo como ele poderia ser no futuro. Quando eles adoecem, suas mães os levam para outro lugar, onde outro ser da mesma espécie pega uma ferramenta com a ponta brilhante e enfia em sua pele, misturando uma substância, desconhecida para a maioria deles, em seu sangue. Dizem que isso o faz melhorar, eu não fiquei para ver. Os gritos de dor das pequenas criaturas enchiam meus ouvidos. Parecia uma tortura ir para lá. Os pequenos esperneavam, imploravam para sua mãe para ir embora. Mas ela parecia não entender o que ele falava. Ou entendia, mas não queria tirar ele dali. Queria ouvir seus gritos como uma boa fêmea sádica faria.

Quando esses pequenos crescem, eles tentam encontrar mais coisas para fazer, já que já sabem tudo sobre o lugarzinho sujo onde vivem. Eles vão para outros lugares, fazendo coisas que basicamente só serão úteis para a vidinha deles para arrumar uma fêmea para procriar. Quando eles vão para esses lugares e fazem essas coisas, eles ganham o direito de ir para partes do seu planetinha onde eles podem pegar coisas que julgam ser úteis para sua vida. Observando mais esses seres, percebe-se que eles cobrem seu corpo com coisas que não sei o que são. Eles o cobrem como se tivesse vergonha de como nasceram. Ornamentam seu corpo com mais objetos, deixando-os espalhafatosos, diferentes do original. Passam até mesmo algum tipo de tinta no rosto, porque julgam ficar melhores assim. Imagino o motivo deles fazerem isso. Talvez estejam tentando parecer de outra espécie, para que predadores não rasguem sua carne frágil e desgastada com a própria sujeira. Eles se acham as criaturas mais racionais e limpas do planetinha deles, mas estão é acabando com o próprio habitat. Não com seu planetinha sem graça, eles sujam o lugar onde vivem, obrigando seu planetinha a mudar. E isso só piora para o lado deles. Ainda o chamam de criaturas racionais que sabem o que estão fazendo.
Depois de muito tempo de pesquisa, descobri que o nome dessas criaturas estranhas nesse planetinha sem graça em um canto abandonado do universo. Eles se autodenominam humanos.

Tenho medo de visitar esse planeta, medo do que as fêmeas sádicas e os machos brutalhões fariam comigo. Pelo visto, eles são curiosos demais e ainda destroem tudo o que tocam. Não, melhor não. Deixarei essa visita para depois.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Eternal life

Fugiu de casa como sempre fazia, correndo pelas ruas desertas o mais rápido que suas pernas fracas conseguiam. Toda aquela neve caída pelo chão dificultava seu movimento, mas ele não ligava. Só queria ir o mais longe possível do seu pai bêbado. Não queria passar o resto da noite caído no chão da sua casa, sem conseguir se mexer de tão machucado que estaria, observando sua mãe ser estuprada pelo seu pai. Ela sempre gritava por socorro, chorava pedindo ajuda. Mas ele não conseguia se mexer. Seus músculos sempre doíam, sentia algo quente escorrendo pela sua cabeça, provavelmente era sangue. Não queria ver isso novamente. Sentia-se o perfeito covarde por não conseguir ajudar sua mãe. Mas não era sua culpa, era? Claro que era.

Entrou em um beco, se apoiando na parede suja e molhada, com o peito subindo e descendo rapidamente. Não tinha condição de correr e não tinha ideia de como ainda conseguia. Ele era pequeno, fraco demais para qualquer coisa. Fechou os olhos por um segundo, sem ouvir que alguém se aproximava. Foi pego de surpresa por um homem estranho, de cabelos negros e revoltos caindo sobre a face angulosa. O homem estranho o cumprimentou, perguntou com um delicado interesse o motivo de um jovenzinho como ele estar ali, sozinho no meio da noite. Não iria falar a verdade para ele, respondeu-lhe que não interessava e desviou o rosto. Falar sobre aquilo era uma das últimas coisas que queria naquele momento. O homem de rosto charmoso e olhos de um estranho vermelho-sangue o encarou por um momento, dando de ombros. Ouviu o homem murmurar algo sobre estar com fome, mas não ligou para isso. Não ligava se aquele homem estava com fome ou não. Ele também estava e não saía falando para qualquer um.

Era impressionante como ele se movia silenciosamente, não notou ele se aproximando novamente. Só notou alguma coisa quando foi empurrado contra a parede. Fez uma tentativa de perguntar o que ele estava fazendo, mas não saiu muita coisa, somente um murmúrio inaudível. Ele era silencioso e gracioso, mas também era incrivelmente forte. Seu peito doeu com o impacto. Qualquer coisa iria doer naquele momento, não era lá muito forte ou resistente. Quando menos esperava, aquele homem o mordeu. Mordeu seu pescoço. Antes que pudesse protestar qualquer coisa, sua voz foi silenciada por uma dor aguda onde ele ainda estava mordendo. Conseguiu somente soltar um gemido de dor e prazer. Não tinha ideia do que aquele homem estava fazendo, mas era gostoso. Seus músculos pareciam paralisados, como se fossem feitos de concreto. Sentia que ele estava sugando. Ele estava bebendo seu sangue? Que coisa mais estranha... Arregalou os olhos, finalmente entendendo. Tentou se debater, sair dos braços daquele maluco. Mas não conseguia. Ficou com medo, o que iria acontecer? Iria morrer agora, vítima da sede de um vampiro. Mas se bem que não era ruim, era? Ficaria livre daquela vida suja, nunca mais veria seu pai novamente. Nunca mais teria que apanhar dele. Soltou um pequeno sorriso, esperando que a morte viesse. Mas ela não veio. Quando aquele homem retirou as presas dele de seu pescoço, tudo ficou confuso.

Darei-lhe a vida eterna.

A voz suave dele ressoou em seu ouvido, como uma profecia. Uma maldição. Ele passou a mão em seus cabelos, aproximando seu rosto do pescoço dele. Não pensou muito, mordeu-o com força, sentindo um gosto estranho em sua boca. O sangue dele fluía com facilidade. Bebeu tudo o que pode, saciando sua fome antiga. Uma fome que estava ali há tanto tempo, que já tinha se acostumado com ela. Sugava o máximo que podia, parecia tão correto na hora. Não demorou muito para que o homem o afastasse, olhando para ele com um olhar que não conseguiu decifrar. Sua visão estava borrada e sentia-se tonto, algo estava errado. Ele acariciou seu rosto, olhando-o com um olhar cuidadoso. Perguntou se ele estava bem. Mas não conseguiu responder. Ele riu, soltando-o. Sem seu apoio, escorreu até o chão, caindo pesadamente na neve. Antes que pudesse virar o rosto para perguntar o que diabos foi aquilo, o homem fugiu sem deixar rastros. O abandonou ali, sozinho. Encolheu-se, sentindo-se estranho. Seu corpo formigava. Fechou os olhos por um instante, desmaiando. Acordou com alguém o sacudindo, perguntando se ele estava bem. Não reconheceu aquele homem de cabelos brancos como à neve e um olhar bondoso. Fechou os olhos novamente, aquilo era tudo um sonho... Iria acordar logo, no mesmo chão frio de antes, preocupado com a sua mãe e se culpando por nunca conseguir ajudar ela, salvá-la do seu pai.