Fugiu de casa como sempre fazia, correndo pelas ruas desertas o mais rápido que suas pernas fracas conseguiam. Toda aquela neve caída pelo chão dificultava seu movimento, mas ele não ligava. Só queria ir o mais longe possível do seu pai bêbado. Não queria passar o resto da noite caído no chão da sua casa, sem conseguir se mexer de tão machucado que estaria, observando sua mãe ser estuprada pelo seu pai. Ela sempre gritava por socorro, chorava pedindo ajuda. Mas ele não conseguia se mexer. Seus músculos sempre doíam, sentia algo quente escorrendo pela sua cabeça, provavelmente era sangue. Não queria ver isso novamente. Sentia-se o perfeito covarde por não conseguir ajudar sua mãe. Mas não era sua culpa, era? Claro que era.
Entrou em um beco, se apoiando na parede suja e molhada, com o peito subindo e descendo rapidamente. Não tinha condição de correr e não tinha ideia de como ainda conseguia. Ele era pequeno, fraco demais para qualquer coisa. Fechou os olhos por um segundo, sem ouvir que alguém se aproximava. Foi pego de surpresa por um homem estranho, de cabelos negros e revoltos caindo sobre a face angulosa. O homem estranho o cumprimentou, perguntou com um delicado interesse o motivo de um jovenzinho como ele estar ali, sozinho no meio da noite. Não iria falar a verdade para ele, respondeu-lhe que não interessava e desviou o rosto. Falar sobre aquilo era uma das últimas coisas que queria naquele momento. O homem de rosto charmoso e olhos de um estranho vermelho-sangue o encarou por um momento, dando de ombros. Ouviu o homem murmurar algo sobre estar com fome, mas não ligou para isso. Não ligava se aquele homem estava com fome ou não. Ele também estava e não saía falando para qualquer um.
Era impressionante como ele se movia silenciosamente, não notou ele se aproximando novamente. Só notou alguma coisa quando foi empurrado contra a parede. Fez uma tentativa de perguntar o que ele estava fazendo, mas não saiu muita coisa, somente um murmúrio inaudível. Ele era silencioso e gracioso, mas também era incrivelmente forte. Seu peito doeu com o impacto. Qualquer coisa iria doer naquele momento, não era lá muito forte ou resistente. Quando menos esperava, aquele homem o mordeu. Mordeu seu pescoço. Antes que pudesse protestar qualquer coisa, sua voz foi silenciada por uma dor aguda onde ele ainda estava mordendo. Conseguiu somente soltar um gemido de dor e prazer. Não tinha ideia do que aquele homem estava fazendo, mas era gostoso. Seus músculos pareciam paralisados, como se fossem feitos de concreto. Sentia que ele estava sugando. Ele estava bebendo seu sangue? Que coisa mais estranha... Arregalou os olhos, finalmente entendendo. Tentou se debater, sair dos braços daquele maluco. Mas não conseguia. Ficou com medo, o que iria acontecer? Iria morrer agora, vítima da sede de um vampiro. Mas se bem que não era ruim, era? Ficaria livre daquela vida suja, nunca mais veria seu pai novamente. Nunca mais teria que apanhar dele. Soltou um pequeno sorriso, esperando que a morte viesse. Mas ela não veio. Quando aquele homem retirou as presas dele de seu pescoço, tudo ficou confuso.
Darei-lhe a vida eterna.