- De primeiro, ele me seduziu com filmes. Na terceira noite, ele me convenceu a fazer o mesmo que mostrava nos filmes. Quando ele finalmente entrou em mim, doeu. Doeu muito. Parecia que eu ia partir ao meio. Mas tirando quando ele fazia isso, era bom. Oh, era sim. Eu era pequeno demais para entender o que era aquilo, ainda mais que eu era ingênuo demais na época. Nunca tinha ouvido falar disso. Não sabia que era errado. Mas ele me mostrava os filmes que eu era proibido de ver, logo julguei que não era ruim. Pensava que meu tio era bom, que ele era legal por me mostrar aquilo. Era o nosso segredo e eu estava feliz por isso. Quando cresci o suficiente para entender o que era, já era tarde demais. Não tinha poder para fugir. E como eu já não era tão pequeno, a dor não era tão grande assim. Ainda doía que nem o inferno, mas nem tanto. Quando ele se casou e teve você, essas noites se tornaram mais raras, mas ainda aconteciam. Quando você completou sete anos, a mesma idade que ele começou comigo, ele usou a mesma tática. Ele te queria também. Quando você dormia lá, ele passou os mesmos filmes que passou comigo. A mesma coisa, a mesma tática. Só que você ficou com medo daquilo, eu percebi no seu olhar. Parecia até que você já sabia que aquilo era errado, diferentemente de eu na sua idade. Ele te seduziu também, me lembro disso como se fosse ontem. E quando eu finalmente pude tocar em você, me tornar o dominador, que nem o meu tio fazia comigo, me senti poderoso. Aquela sensação era muito boa. Eu pude mostrar para ele que eu não era tão frágil assim. Que eu conseguia ser melhor que ele. Quando ele entrava em mim após eu ter experimentado esse poder, eu me sentia rebaixado. De certa forma humilhado. Queria tocar em você novamente para me sentir melhor. Quando cresci, me tornei viciado nisso. Essa sensação de poder é simplesmente boa demais. Eu imagino que se você não tivesse existido para me mostrar como era ser o dominador, o que teria acontecido comigo... Talvez eu virasse estatística como mais um pobre menino que foi abusado sexualmente e que agora sofre de depressão e coisas do tipo. Mas você apareceu, tornando-me no... – Ele parou abruptamente de falar, como se tivesse travado. Ele se virou, permitindo que eu visse seu rosto pela primeira vez desde que ele começou seu discurso.
Por um segundo, eu pode ver uma expressão frágil em seu rosto, como se ele ainda fosse a criancinha que era na época falando sobre isso. Era estranho vê-lo com essa expressão, já que ele agora usava uma máscara de indiferença e leve cordialidade. Aquela expressão desapareceu rapidamente de seu rosto, com a sua habitual tomando lugar. Ele hesitou, mas caminhou até a porta e a abriu rapidamente. Virei-me, vendo uma mulher pequena de feições meigas e assustadas ali. Estava tão absorvido nas palavras dele que não a ouviu ali.
- S-Sleigh! E-Eu... Eu acabei de chegar aqui. Eu ia te convidar para comer alguma coisa, mas você está ocupado, então... – Ela tentou explicar rapidamente, com o rosto ficando corado de vergonha.
Ele agarrou-a pelo braço, arrastando-a para dentro e fechando a porta pesadamente atrás de si. Virou-se para ela, encarando-a com seu olhar mortalmente frio. Era como se não tivesse uma alma dentro daquele corpo.
- O que você ouviu? Você ouviu tudo, não foi?
- N-Não! E-Eu não ouvi n-nada... P-Por favor... – Ele a encarou, sabia que ela estava mentindo. – T-Tudo bem... Eu ouvi tudo, desculpe...
Sleigh abaixou o olhar, parecendo mais do que nunca um fantasma. Seus cabelos loiros, beirando ao branco, caíram suavemente sobre seu rosto, cobrindo seus olhos por um momento. Ele indicou o sofá para ela se sentar e saiu. Quando ele voltou, vi outra taça em sua mão, a qual foi rapidamente enchida com um vinho branco. Precisava fazê-lo voltar a falar, ela tinha atrapalhado tudo. Observei ele se virar novamente, encarando a janela de seu apartamento.
- Se fosse ao menos só meu tio, não seria tão ruim. – Olhei ele rapidamente, pelo visto tinha mais coisa... Pobrezinho. – Depois que meu tio transou comigo quando eu tinha sete anos, era como se tivessem colocado um aviso brilhante em minha cabeça. Depois disso, parece que todos os pedófilos da cidade se viraram contra mim... O primeiro depois dele, foi meu professor de ginástica da escola. Ele me falou que queria me ver depois da aula, mas não era para eu contar para ninguém. E ele esperava que eu contasse para quem? Eu não tinha amigos. Mas de qualquer modo... Eu fui ao encontro dele, nas quadras da escola. Ele me levou para o vestiário e bem... Nem esperou eu me dar conta do que acontecia. Arrancou minhas roupas sem mais nem menos. Doeu muito mais do que com meu tio. O dele era mais grosso. Esses encontros depois da aula aconteciam uma vez por semana. Uma vez um dos meninos mais velhos apareceu por lá. Primeiro pareceu surpreso, mas depois ficou no canto, masturbando-se com a cena. Quando o professor tinha acabado, ele partiu para cima de mim. Eu não gritei, é claro. Não fiz nada. Aquilo era o que acontecia, era a minha realidade e mudá-la estava longe do meu alcance. Eu sentia dores constantemente, era demais para o meu corpo. Mas era a minha punição por ser tão horrível. Era um menininho sujo, era a minha punição por sentir prazer naquele sexo proibido. Qualquer outra criança teria sentido medo, mas eu não. Eu ficava quieto, gemendo de prazer enquanto ele não me penetrava. Aquela dor era minha punição. Meu dever sentir aquilo, meu castigo. Sempre que eu ficava nem que um segundo sozinho com meu tio, ele olhava em volta e me atacava, pressionando seu corpo contra o meu. E quando você nasceu, pude perceber que você era só alvo do meu tio. O professor de ginástica o olhava como se você fosse um fruto proibido. Ele gemia essas coisas no meu ouvido quando estava comigo. Falava que estava cansado do meu corpo velho e usado, que queria algo mais jovem. Que queria você, Luka. Mas ele não podia ter você. Nessa hora ele me pressionava mais forte ainda, descontando em mim sua frustração. Quando eu finalmente saí daquela cidade, ainda com os constantes abusos, eu senti como se um peso tivesse saído dos meus ombros. Mas depois de ter provado de como era dominar alguém, de como era se sentir poderoso ao entrar em um corpo frágil, eu estava viciado. Eu precisava disso novamente. – Ele parou de falar, olhando para baixo. O modo rude e direto que ele tinha falado tudo aquilo tinha me chocado. Olhei de esguelha para a mulher que tinha entrado ali, observando seu rosto chocado. Nossos olhos se encontraram por um segundo, fazendo com que eu percebesse seu desespero.
Certas palavras dele deixaram-me confuso. Ele disse que tinha se tornado viciado naquilo. Isso queria dizer que ele tinha se tornado um pedófilo? Não esperava por aquela resposta. No fundo, queria que ele fosse triste e deprimido como eu ainda era. Torcia para que estivéssemos no mesmo barco, que ele tivesse se arrependido. Mas não. Ele tinha se tornado o oposto. Ele tinha se tornado que nem meu pai, o tio dele. Saber que ele também fora abusado pelo professor de ginástica foi uma surpresa. Pensava que era só meu pai que fazia isso com ele. E Sleigh tinha se tornado que nem ele. Que nem meu pai. Minha torrente de pensamentos confusos foi interrompido por um grito abafado. Virei o rosto, arregalando os olhos em medo ao ver uma arma com um silenciador nas mãos do meu primo e o corpo morto daquela mulher nervosa que estava ali por coincidência caído no sofá. Levantou-se rapidamente, não queria acabar que nem ela.
- S-Sleigh... Por favor... Não faça isso! Deixe-me ir.
- Não, Luka. Tudo isso era segredo. Nada poderá garantir que você vai espalhar por aí tudo o que eu lhe falei. Sair falando para todos esses seus terapeutas.
- Eu juro que não falarei nada para ninguém! Por favor, deixe-me viver! Não vim até aqui para morrer agora!
- Não, não confio em você. Sinto muito. – O vi levantando a arma, atirando em minha cabeça antes que eu pudesse protestar novamente. Senti a bala se alojando em meu crânio, acabando com a dura vida que tinha seguido. Tantos momentos eu estava na beira de desistir, me suicidar. Mas agora, quando finalmente tinha me recuperado e decidido viver, quando eu finalmente estava feliz, eu morro. Deve ser assim mesmo... Quem sabe eu não fui feito para ser feliz.
Gostei do seu estilo, menina. Eu me enxergo no seu jeito de ser e de escrever. Quero pensar como você quando eu crescer, se eu crescer.
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